O impacto económico do entretenimento integrado: resorts com casino são motor turístico fora da época balnear em Portugal

Escrito por: Gabriel Gonçalves, Editor | Revisado por: Ricardo Crespo, Editor e revisor
Última atualização Ago 27, 2026

O turismo português tem um desafio que vai além de atrair visitantes: conseguir distribuí-los melhor ao longo do ano.

No Algarve, uma das regiões mais dependentes do turismo, a concentração da procura nos meses de verão continua a ser particularmente relevante.

foto do algarve

Foto de Pexels.

Em 2025, o Algarve registou 20,8 milhões de dormidas, das quais 16 milhões corresponderam a turistas estrangeiros, ou 76,8% do total.

Julho foi o mês de maior procura internacional, com 2,09 milhões de dormidas, enquanto janeiro registou o menor número de dormidas tanto entre estrangeiros como entre portugueses.

O índice de sazonalidade da região melhorou, passando de 44% em 2022 para 40,8% em 2025.

Ainda assim, a diferença entre a procura de verão e a de inverno mostra que existe espaço para aumentar a atividade turística fora da época balnear.

Um problema que tem impacto económico

A sazonalidade não afeta apenas os hotéis. O turismo assegurava 74.300 postos de trabalho no Algarve em 2024.

Desse total, 23.400 estavam na restauração e 16.000 na hotelaria. Juntos, os empregos diretamente ligados ao turismo representavam quase 17% do emprego total da região.

Quanto maior for a concentração da procura em poucos meses, maior é também a dificuldade de manter uma utilização regular destas estruturas.

É aqui que o conceito de entretenimento integrado ganha importância.

A rede hoteleira não precisa depender exclusivamente da praia e do clima, mas pode combiná-los também com casino, poker, espetáculos e eventos para criar motivos de viagem durante o ano todo. 

Os casinos mantêm atividade significativa no inverno

Os dados do Serviço de Regulação e Inspeção de Jogos mostram que existe procura por entretenimento em casino mesmo nos meses tradicionalmente mais fracos para o turismo.

No primeiro trimestre de 2025, os casinos e salas de máquinas em Portugal registaram 64,46 milhões de euros em receita bruta de jogo. Janeiro respondeu por 23,13 milhões de euros, fevereiro por 19,74 milhões e março por 21,59 milhões.

No quarto trimestre, a receita bruta chegou a 69,85 milhões de euros. Outubro registou 23,44 milhões de euros, novembro 22,10 milhões e dezembro 24,30 milhões.

Os números não significam que toda essa receita seja proveniente de turistas ou que seja diretamente convertida em receita hoteleira.

A receita bruta de jogo é uma métrica específica do setor. Mas demonstra que a atividade dos casinos permanece economicamente relevante durante os meses de inverno.

E é precisamente essa característica que torna o casino diferente de uma atração exclusivamente balnear.

Poker cria um motivo concreto para viajar

Os torneios de poker são um dos exemplos mais claros de como o entretenimento pode ser utilizado para gerar procura fora do verão.

foto de um torneio fictício de poker

Foto de Freepik.

Em 2025, a Solverde Poker Season realizou duas das suas etapas no Hotel Algarve Casino, em Portimão: uma entre 6 e 9 de março e outra entre 13 e 16 de novembro. Houve ainda uma etapa no Casino Vilamoura, em maio.

O calendário é relevante porque coloca eventos de vários dias em março e novembro, precisamente em períodos afastados do pico da temporada balnear.

A etapa de março teve 214 entradas no Main Event e um prize pool de 57.257 euros.

A etapa de novembro também foi realizada durante quatro dias em Portimão.

No balanço de 2025, o PokerPT contabilizou quase 4.000 entradas ao longo de toda a Solverde Poker Season e mais de 1 milhão de euros distribuídos em prémios.

As duas etapas realizadas em Portimão concentraram quase 500 participações nos respetivos Main Events.

Para a hotelaria, o interesse está justamente na duração desses eventos. Um torneio que decorre durante quatro dias cria uma oportunidade para transformar participantes em hóspedes, em vez de gerar apenas uma visita de algumas horas.

O resort transforma o jogador em hóspede

A integração entre poker e hotelaria é ainda mais evidente quando os eventos são comercializados em conjunto com alojamento e alimentação.

Neste modelo, o visitante não compra apenas a participação no torneio. Pode adquirir um pacote que inclui quarto, pequeno-almoço, refeições e o buy-in da competição.

O efeito económico potencial é maior porque a mesma viagem pode gerar receitas em várias áreas: alojamento, restauração, entretenimento e casino.

Não é possível, com os dados públicos disponíveis, determinar quantas noites adicionais foram geradas especificamente por cada torneio.

Por isso, seria incorreto atribuir diretamente a um evento uma determinada parcela da receita hoteleira regional.

O que os dados comprovam é que existe uma estratégia deliberada de colocar torneios em períodos de menor procura e integrá-los com a operação hoteleira.

Espetáculos acrescentam outra fonte de procura

O poker é apenas uma das possibilidades. Espetáculos, jantares temáticos e eventos especiais também permitem criar produtos turísticos fora da época balnear.

foto de jantar em restaurante

Foto de Freepik.

A vantagem está em aumentar o número de motivos para uma viagem. Um visitante que não teria razão para passar um fim de semana no Algarve em novembro pode fazê-lo por causa de um torneio, de um concerto ou de um evento especial.

Para um resort integrado, isso também aumenta o potencial de consumo por visitante.

Uma estadia pode envolver quarto, restaurante, bar, espetáculo e casino. O mesmo princípio é aplicado a eventos de passagem de ano, concertos e outros formatos de entretenimento.

O impacto vai além da receita do casino

A importância económica desse modelo está justamente no efeito combinado.

Ao mesmo tempo em que registra números altos de visitantes, a região do Algarve continua a apresentar o desafio da sazonalidade.

Isso significa que a questão já não é apenas construir mais oferta para o verão. É encontrar formas de utilizar melhor a infraestrutura existente durante o resto do ano.

Os resorts com casino têm uma vantagem nesse sentido: conseguem combinar diferentes produtos dentro do mesmo espaço e criar eventos capazes de gerar procura independentemente da praia.

O poker é um bom exemplo. Em 2025, quase 4.000 entradas foram registadas na Solverde Poker Season e mais de 1 milhão de euros foram distribuídos em prémios. Duas das etapas algarvias aconteceram em março e novembro.

Os casinos, por sua vez, registaram mais de 64 milhões de euros de receita bruta no primeiro trimestre e quase 70 milhões no quarto trimestre de 2025.

Nenhum destes números, isoladamente, prova que os casinos sejam responsáveis pela redução da sazonalidade.

Mas, em conjunto, mostram como o entretenimento integrado pode criar atividade económica precisamente nos meses em que o turismo balnear perde força.

Para destinos como o Algarve, essa pode ser uma das formas mais concretas de transformar o inverno de uma época de menor procura numa oportunidade para hotelaria, restauração e entretenimento.

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